domingo, 6 de julho de 2014

O Papel das Mulheres no Livro de Juízes

Hoje vamos estudar o livro de Juízes e acho importante entender o contexto de um livro antes de começar a estudá-lo. Por isso, antes de mais nada, gostaria de mostrar como Juízes se encaixa na história de Israel. 
  •  Gênesis - todos conhecem o cativeiro do Egito iniciado no final do livro de Gênesis.
  •  Êxodo - os israelitas deixam o Egito e Deus lhes dá os 10 Mandamentos.
  •  Levítico trata dos pormenores da Lei.
  •  Em Números espera-se que os israelitas entrem na terra prometida e tomem posse dela, mas eles ficam amedrontados devido ao relato de 10 espias e não confiam em Deus; por isso, Deus os manda para o deserto até que todos os adultos pereçam, exceto Josué e Calebe.
  •  Em Deuteronômio Deus leva os israelitas de volta ao Monte Sinai, confirma Sua Aliança com eles e promete abençoá-los se eles O seguirem, e amaldiçoá-los se O deixarem.
  •  No livro de Josué eles iniciam a conquista da terra prometida. Josué conduz a nação até o final de sua vida, e é aí que começa o livro de Juízes - com a morte de Josué.
Precisamos entender que o povo não foi capaz de tomar posse integral da terra prometida sob a liderança de Josué, mesmo após a sua morte. Por que será?
Juízes 1:19 dá os motivos para tal sob a perspectiva dos israelitas.
"Esteve o SENHOR com Judá, e este despovoou as montanhas; porém não expulsou os moradores do vale, porquanto tinham carros de ferro.”
Será que esta foi a verdadeira razão pela qual os israelitas não conseguiram expulsar seus inimigos? Será que carros de ferro impediram Deus de lançar os egípcios no Mar Vermelho? O restante dos capítulos 1 e 2 contam como Israel fracassou em sua missão.
Em Juízes 2:2-3 e 20-23 o fracasso dos israelitas é mostrado sob a perspectiva de Deus.
"Subiu o Anjo do SENHOR de Gilgal a Boquim e disse: Do Egito vos fiz subir e vos trouxe à terra que, sob juramento, havia prometido a vossos pais. Eu disse: nunca invalidarei a minha aliança convosco. Vós, porém, não fareis aliança com os moradores desta terra; antes, derribareis os seus altares; contudo, não obedecestes à minha voz. Que é isso que fizestes? Pelo que também eu disse: não os expulsarei de diante de vós; antes, vos serão por adversários, e os seus deuses vos serão laços.”
Portanto, vemos que as verdadeiras razões para o fracasso de Israel foram desobediência e falta de fé em Deus.
Juízes 3:5-6 resume como os israelitas se saíram no teste.
"Habitando, pois, os filhos de Israel no meio dos cananeus, dos heteus, e amorreus, e ferezeus, e heveus, e jebuseus, tomaram de suas filhas para si por mulheres e deram as suas próprias aos filhos deles; e rendiam culto a seus deuses.”
Princípio: Quem anda com más companhias certamente pegará seus maus costumes.

SUMÁRIO

Assim, Juízes fala sobre a convivência das tribos de Israel com seus inimigos e sobre a opressão exercida por estes, um após outro. Quando as coisas ficavam realmente ruins, Deus levantava um juiz que conduzia uma campanha militar e derrotava um determinado inimigo, havendo paz durante alguns anos. E aí o ciclo recomeçava. Basicamente, vemos seis desses ciclos ao longo do livro. A cada um deles as coisas ficavam um pouco pior. Era como descer uma escada em espiral.

Abordando Juízes Como Literatura

Geralmente abrimos a Bíblia para procurar proposições teológicas ou estudar algum personagem, como Elias, José ou Gideão, e ignoramos suas partes históricas ou narrativas. No entanto, podemos aprender muitas coisas dessas partes. Uma coisa bastante útil é examiná-la como obra literária, não apenas como um livro repleto de afirmações teológicas. Com certeza a leitura se tornará mais agradável e, mais importante, nos ajudará a descobrir quais pontos o autor está tentando ressaltar.
Um dos aspectos literários que devemos procurar é a repetição de frases. Veremos isso em Juízes. Outra coisa é analisar como o autor lida com o papel dos personagens. Creio que um estudo desses homens e mulheres irá nos mostrar coisas muito importantes. Creio também que o livro revele (de forma negativa) a importância de uma liderança competente para o povo de Deus. Embora vários juízes ou líderes tenham sido levantados por Deus para obterem vitórias militares, muitos fracassaram lamentavelmente em outros aspectos. A despeito de seu sucesso militar, o clima espiritual de Israel se tornava cada vez pior, enquanto violência e anarquia assolavam o país. Os últimos capítulos do livro incluem uma sórdida narrativa de idolatria, estupro coletivo, guerra civil e seqüestro. As palavras finais são bastante sombrias: "Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto." (21:25; 17:6; 18:1; 19:1). Este cenário prepara o terreno para a ascensão de Samuel e Davi, por meio dos quais Deus restauraria a imagem da fidelidade pactual e da ordem social de Israel.
Não é possível ler Juízes sem perceber que as mulheres aparecem em vários pontos estratégicos da narrativa. Elas assumem uma variedade de papéis: de heroínas e sedutoras a vítimas inocentes. A alteração de seus papéis ao longo do livro contribui amplamente para o retrato da desintegração social de Israel, a qual atinge seu ponto máximo em I Samuel 1, com a figura oprimida de Ana, por meio de quem o Senhor reverte a decadência descrita em Juízes e retoma a liderança ideal apresentada no início do livro.
Nosso estudo analisará a relação entre os personagens masculinos e femininos do livro e procurará explicar:
  •  como a alteração dos papéis femininos é o fator-chave para uma avaliação mais abrangente da liderança masculina de Israel durante esse período.
  •  como a história de duas dessas mulheres estabelece, de forma singular, o cenário para o aparecimento de Ana.
Dividi o livro em algumas seções. Uma das coisas que me ajudou a fazer essa divisão foi a repetição da frase "Os filhos de Israel fizeram o que era mau perante o SENHOR...", que antecede:
  •  3:7 - a apresentação de Otoniel
  •  3:12 - a apresentação de Eúde
  •  4:1 - a história de Débora e Baraque
  •  6:1 - a história de Gideão
  •  10:6 - a apresentação de Jefté
  •  13:1 - a história de Sansão
Ocorre ainda que, se dividirmos o livro de acordo com o papel desempenhado pelas mulheres, as divisões praticamente coincidem com as frases introdutórias:
  •  1-3 - Guerreiro conquista esposa e pai abençoa a filha
  •  4-5 - Mulher corajosa atrai soldado inimigo para a morte
  •  6-9 - Uma mulher livra Israel das mãos de inimigo com sede de poder
  •  10-12 - Soldado israelita vence batalha, mas traz maldição sobre sua filha
  •  13-16 - Mulher inimiga atrai soldado israelita para a morte
  •  17-21 - Mulheres israelitas são oprimidas por seus conterrâneos

Guerreiro conquista esposa e pai abençoa a filha (Juízes 1-3)

Na primeira parte do capítulo um vemos que Josué morre e que os israelitas continuam a tomar posse da terra prometida. No final do capítulo três lemos sobre as façanhas de Otoniel, Eúde e Sangar. Estes juízes corajosamente libertaram Israel da opressão de seus inimigos. Embora suas histórias sejam breves, o autor retrata homens de coragem e ousadia militar.
Vamos estudá-los com mais detalhes.

OTONIEL

Otoniel aparece pela primeira vez em 1:13, quando toma parte numa campanha militar liderada por Calebe.
Em 1:13 ele é mostrado como um guerreiro divinamente capacitado, cuja eficiência militar é quase prosaica. Quando Calebe oferece sua filha àquele que capturar Quiriate-Sefer, o verso 13 simplesmente diz: "Tomou-a, pois, Otniel...”
O verso 1:14 da sua Bíblia provavelmente diz que Acsa persuade Otoniel a pedir um campo ao pai dela; mas esta não é uma boa tradução do hebraico. A expressão "a ele" não está no original. A NVI chega a traduzir como "ela foi até Otoniel". Os tradutores tomaram muita liberdade com o texto, como não costumam fazer.
A tradução mais apropriada seria "Sucedeu, então, que vindo ela, persuadiu-o (seu pai) pedindo-lhe um campo." (Primeiro está escrito o que vai acontecer e só depois vem a ação...) "e ela apeou do jumento; então, Calebe lhe perguntou: Que desejas?”
Estou gastando tempo na correção desta tradução porque acho importante entender que Otoniel não é nenhum fraco ou ganancioso, que está pedindo uma esmola a seu sogro. Pelo contrário, Acsa é quem pede o dote ao pai dela.
E é aqui que quero mostrar a primeira divisão do livro, que acentua o caráter guerreiro de Otoniel e a bênção de um pai para sua filha.

A BÊNÇÃO PATERNA

Pode parecer, a princípio, que Calebe não está tratando muito bem sua filha, por oferecê-la como prêmio por bravura. Contudo, precisamos reconhecer que seu desafio aos soldados israelitas garantiria que ela se casasse com um homem forte e corajoso, o qual, sem dúvida, seria o líder e provedor de sua família. Creio também poder concluir que, se este guerreiro tomou uma cidade, foi porque tem tinha fé em Deus. Esta sempre foi a única maneira dos israelitas vencerem uma batalha. Assim, eram boas as chances de Calebe estar providenciando um homem de Deus para Acsa. Por isso, concluo que ele encontrou um bom marido para ela.
O presente de Calebe também ilustra o cuidado protetor que os pais devem ter para com suas esposas e filhas.
Digo isto porque, mais adiante, veremos um pai que faz uma promessa semelhante, mas com trágicas conseqüências para sua filha (10-12:7). Também veremos que a decadência moral dos homens de Israel chega a ponto de eles afligirem suas próprias mulheres e não cuidarem delas.
Acsa é um belo exemplo de donzela conquistada por bravura. Seu papel fará um contrate muito grande com o papel das mulheres do final do livro. É como num filme do Rei Arthur. No entanto, esta história foi escrita muito tempo antes dos Cavaleiros da Távola Redonda. Quando assistir a um filme do Rei Arthur novamente, você dirá: "Ei, é como na história da Bíblia.”
Assim, temos um guerreiro exemplar, líder corajoso, e uma mulher que se beneficia de sua liderança.

O LÍDER IDEAL

Primeiramente, gostaria de dizer que não há muitas coisas escritas sobre Otoniel. Mas isto é normal quando se deseja retratar alguém como modelo ou exemplo para outras pessoas. O autor não quer que saibamos tudo a respeito do personagem, principalmente seus defeitos e fraquezas. Ele é um personagem-modelo.
Para o autor de Juízes, Otoniel representa o guerreiro ideal, que segue os passos de Josué, derrota corajosamente o inimigo e toma posse da terra que Deus deu a Seu povo.
Após lermos sobre Otoniel no capítulo 1, vemos que o trabalho feito pelos israelitas para se livrarem de seus inimigos foi lamentável.
Em 3:7-11 leremos mais sobre suas façanhas, quando ele derrotar Cusã-Risataim. Repito, não há muita coisa escrita sobre ele ou sobre como derrotou o inimigo. Simplesmente está escrito que ele libertou a nação. Infelizmente, nenhum guerreiro israelita chegaria ao padrão estabelecido por Otoniel até Davi emergir centenas de anos depois.

EÚDE 3:12-30

A história de Eúde é uma narrativa sangrenta de como um guerreiro valente e sagaz ludibria seu inimigo. Para nós, a história poderia ser repulsiva, mas, para o público israelita, ela é cômica e inspiradora. Eúde é outro exemplo de guerreiro valente que confia em Deus (cf. 3:28) e derrota um dos inimigos da nação.

SANGAR 3:31

Pouco é dito sobre Sangar, por isso, não podemos tirar muitas conclusões a seu respeito. No entanto, uma vez que ele está relacionado com Otoniel e Eúde, creio que pode ser visto sob uma luz favorável.
Em resumo, os três primeiros capítulos de Juízes, embora não sejam totalmente positivos em sua avaliação do início da história de Israel, mostram um quadro razoavelmente bom de seus heróis e de uma mulher que inspira grandes feitos e é abençoada por seu pai.

Mulher corajosa atrai soldado inimigo para a morte (Juízes 4-5)

Antes de mais nada percebemos que, nessa época, Israel é liderado por uma mulher. Isto poderia levantar uma pergunta entre os leitores: o que faz uma mulher na liderança da nação? As coisas deviam estar bem ruins. E estavam. Não havia homens corajosos o suficiente para liderar. Veja a resposta de Baraque à ordem de Débora no verso 8: "Se fores comigo, irei; porém, se não fores comigo, não irei." Ele parece uma criancinha conversando com sua mãe. A resposta de Débora no verso 9 demonstra que a atitude de Baraque era totalmente descabida. A honra pela vitória não seria dele, mas de uma mulher.
Vemos que Baraque realmente derrota o inimigo, mas Sísera, o comandante do exército do rei Jabim, escapa e busca abrigo na tenda de um aliado. Aqui Jael entra na história. A despeito da lealdade de seu marido a Sísera, ela é leal a Israel. Por isso, convida Sísera a entrar em sua tenda, dá leite a ele e coloca-o na cama, pois ele está exausto por ter fugido o dia todo; depois, enquanto ele está dormindo, ela crava uma estaca em sua cabeça.
No capítulo 5 há uma extensa canção de celebração. Nessa canção, Jael recebe louvor especial por ter derrotado Sísera. A canção poderia ter sido em honra a Baraque.
Ainda no capítulo 5, a partir do verso 28, ficamos conhecendo a mãe de Sísera. Ela está olhando pela janela, à espera de seu filho. Ela presume que ele esteja demorando porque derrotou o inimigo e está raptando uma mulher ou duas. A ironia é que ele está sendo morto por uma mulher.
O que aprendemos desta história?
  •  Baraque desfruta o sucesso, mas não demonstra a coragem de seus predecessores. Ele pediu apoio militar a uma mulher.
  •  As palavras de Débora são cumpridas: uma mulher recebe a honra pela morte de Sísera.
  •  O papel de guerreiro ideal apresentado no capítulo 3 é desempenhado por uma mulher. Jael é corajosa, toma decisões importantes e sua bravura nos faz lembrar de Eúde, o matador solitário que se valeu de um engodo para dar cabo de um inimigo sem que ninguém percebesse (3:12-30).
  •  Como Sangar, ela usa uma arma incomum. Ele usou uma aguilhada de bois. Ela, uma estaca de sua tenda.
  •  Como Sangar, ela não faz parte do povo de Israel.
No final dessa história, vemos que Israel dá um passo atrás em termos de liderança masculina. Felizmente, duas mulheres se mostram à altura da situação, para compensar a fraqueza dos homens.

Uma mulher livra Israel das mãos de inimigo com sede de poder (Juízes 6-9)

Em seguida temos a história de Gideão. Quase todos nós já ouvimos falar sobre ele. Ele é muito conhecido por ter derrotado o exército midianita com apenas 300 homens.
No entanto, Gideão é um pouco confuso. Ele é cheio de dúvidas e de medos. Ao longo de sua história ele questiona a Deus e O coloca à prova. (O teste com o novelo de lã é famoso.) Mas Deus é paciente com ele e o usa para destruir o inimigo. Sua história nos encoraja e nos dá esperança de que Deus também nos use, a despeito de nossas dúvidas e fraquezas.
Mas eu gostaria de examinar a vida de Gideão da maneira como estamos estudando até agora: sob o ponto de vista do declínio da liderança masculina de Israel.
  •  Como Baraque, Gideão também hesita ao ser chamado para entrar em ação. Se Baraque responde a Débora com um “Se..." Em 6:17, Gideão responde com um "SE” gigante. O mesmo acontece em 6:36. Não é de se estranhar que, em 7:10, Deus lhe diga: "Se ainda temes atacar, desce tu com teu moço Pura ao arraial...”
  •  Quando o povo pede que ele se torne rei, ele não aceita, e acho que isso foi uma coisa positiva. Contudo, em 8:27, sua atitude muda completamente e ele faz uma estola sacerdotal. Essa estola era uma espécie de manto usado pelo sumo-sacerdote, da qual pendia um saquinho com o Urim e o Tumim, utilizados para determinar a vontade de Deus. A estola de Gideão é utilizada, então, na prática ilegal de adivinhação, ou seja, transforma-se em objeto de idolatria. Por isso, ele contribui para o declínio espiritual da nação.
  •  Gideão teve muitas esposas e uma concubina, as quais lhe deram 70 filhos e um outro de nome Abimeleque. A família tem muitas brigas e Abimeleque acaba matando todos os seus irmãos e investindo a si mesmo no poder. Ele, na verdade, não tem nenhum direito à herança, pois sua mãe é uma concubina. Por isso, ele vai aterrorizar o interior do país.
A esta altura dos acontecimentos, mais uma mulher de importância entra na história. Quando Abimeleque está em Tebes, uma mulher atira uma pedra de moinho em sua cabeça (9:53). O texto deixa claro que foi ela mesma quem "atirou" a pedra, o que sugere um ato heróico de grande esforço e a coloca no papel de guerreiro.
Minha pergunta é: "Se todos os homens e mulheres da cidade estavam na torre, por que uma mulher é quem toma a iniciativa de matar Abimeleque?" Acho que isso demonstra que os homens eram uns molengas. Eles não tinham iniciativa. Por isso, na história da morte de Abimeleque, uma vez mais uma mulher salva Israel (ironicamente, novamente com um golpe fatal na cabeça usando uma arma incomum, cf. 5:26 com 9:53). Só que, desta vez, o inimigo é um israelita. Gooding escreve:
"As coisas realmente se agravaram quando a sujeição de Israel passou a ser a alguém de seu próprio povo, o qual, em vez de libertar a nação, instalou a si mesmo como ditador, mantendo o poder pela força.”
Por isso, o que vimos até aqui é uma mudança no papel das mulheres: de musa inspiradora de bravos guerreiros a libertadora de Israel da opressão de um de seus próprios cidadãos.
Vemos que a liderança de Israel está se desintegrando. Otoniel, Eúde e Sangar foram guerreiros sábios e corajosos. Baraque já não foi tão corajoso. Gideão não foi nem tão corajoso nem tão sábio. Agora, veremos outro líder que também não foi tão corajoso e ainda foi muito tolo.

Soldado israelita vence batalha, mas traz maldição sobre sua filha (Juízes 10-12)

Temos nossa frase introdutória em 10:6 e depois, em 11:1, Jefté é apresentado. Logo no início ficamos sabendo que ele é um "guerreiro valente", mas filho de uma prostituta. Nesse sentido, ele é parecido com Abimeleque.
Os meios-irmãos de Jefté, filhos legítimos de seu pai, expulsam-no da cidade e ele começa a associar-se a "homens levianos". Assim, aprendendo a sobreviver e a defender-se "nas ruas", ele fica mais forte. Quando as coisas realmente ficam feias para Israel, os anciãos pedem que ele volte, concordando em deixá-lo conduzir a nação, caso ele os ajude.
Em 11:29, vemos que o Espírito de Deus vem em seu auxílio, mas ele não confia em Deus como deveria e acaba fazendo uma promessa muito precipitada. Da mesma forma que Baraque e Gideão, ele usa um grande "SE” antes da batalha. A expressão exata de seu voto indica que ele pretende oferecer um sacrifício humano, não animal, mas espera que seja alguém do sexo masculino. (Podemos tirar esta conclusão por ele ter usado um termo masculino.) Ele tem somente um descendente, uma filha, por isso, provavelmente, estava pensando em algum servo.
Fica comprovado que o voto foi tolo e precipitado, pois, ao retornar para casa, vitorioso, a primeira pessoa que ele encontra é sua filha. Creio que ele manteve seu voto e a sacrificou. Não há nenhuma razão para pensarmos que ele a tenha enviado para o templo para uma vida de serviço a Deus. O tributo prestado a ela todos os anos (11:40) parece mais viável no caso de ela estar morta, não viva.
Em contraste com Calebe, que trouxe bênção para sua filha, a loucura de Jefté trouxe maldição para a sua.
Finalmente, em 12:4, vemos que Jefté se envolve numa guerra civil contra os efraimitas. Em contraste com Eúde, que toma os vaus do Jordão contra o exército gentio, Jefté luta contra seus compatriotas israelitas.
Uma vez mais a crise na liderança de Israel é evidente. A inversão de papéis das principais personagens femininas chama a atenção para esse fato. Agora, uma mulher torna-se vítima da falta de fé e sabedoria de seu próprio pai.

Mulher inimiga atrai soldado israelita para a morte (Juízes 13-16)

A seguir, temos a história de Sansão. Ele parece ter todas as qualidades necessárias a um grande líder.
  •  Sua concepção é sobrenatural, indicando que Deus tem um propósito especial para ele.
  •  Como Otoniel, ele é divinamente capacitado, é destemido e não hesita em atacar os inimigos do Senhor.
  •  Como Eúde, ele é esperto. Ama enigmas.
  •  Como Sangar, é capaz de matar centenas de inimigos, mesmo com uma arma incomum. Se bem me lembro, a arma escolhida foi uma queixada de jumento. Creio que o uso de armas não convencionais ao longo do livro de Juízes demonstra que é Deus quem dá a vitória.
Entretanto, não precisamos ir muito longe para ver a fraqueza de Sansão pelas mulheres. Ele se casa com uma mulher de Timna. Está escrito que Deus aprovou o casamento (14:4). Isto tanto pode significar que Deus tenha colocado o desejo no coração de Sansão, quanto pode indicar que este desejo seria utilizado por Deus, sem aprovação do casamento. Sansão também se envolve com uma prostituta em Gaza e com Dalila, outra prostituta filistéia que veio a ser sua ruína.
Em 14:2 está escrito que Sansão "viu" uma mulher em Timna (14:2) e, em 16:2, que “viu" uma prostituta em Gaza. Isto soa um tanto irônico, pois, quando ele é capturado pelos filisteus, estes vazam seus olhos, e assim ele não poderá “ver" mais nenhuma mulher.
Uma vez que estamos analisando Juízes como história, precisamos reconhecer que, em contraste com Jael, que atraiu um general inimigo para a morte, Dalila, uma inimiga, atrai para a morte o maior de todos os guerreiros de Israel. Sansão agora está no papel de Sísera. Deus permite que ele se vingue, mas ele também acaba morrendo.
A morte de Sansão no templo filisteu torna completo o ciclo descendente da liderança de Israel. A falta de fé abriu caminho para a falta de sabedoria. Nenhum outro líder individual aparece no livro. Os capítulos finais descrevem um período de anarquia que supera a desordem provocada anteriormente por Abimeleque.

Mulheres israelitas são oprimidas por seus conterrâneos (Juízes 17-21)

Sem liderança espiritual efetiva, o povo de Israel (como todos os seres humanos), com sua propensão à rebeldia, abandona o Senhor. A idolatria e a guerra civil tomam conta da nação.
Nesta seção do livro as mulheres desempenham papéis importantes como vítimas de sua época. No capítulo 19, um levita, viajando com sua concubina (concubina? perguntaria o leitor), decide ser mais seguro passar a noite em território israelita do que em território jebuseu. Novamente, mais ironia. Ele estava errado. Teria sido mais seguro permanecer em território jebuseu. Um grupo de israelitas vai ao lugar onde ele está hospedado, a fim de ter relações sexuais com ele. (O paralelo com Sodoma e Gomorra deve ser óbvio.) Ele manda a concubina em seu lugar e eles abusam dela a noite toda, deixando-a à beira da morte.
Quando o levita pede aos benjamitas que lhe entreguem os criminosos, eles se recusam. Por isso, ele divide o corpo da mulher morta em 12 partes e envia os pedaços às demais tribos de Israel, pedindo seu auxílio; e a guerra civil explode. Os benjamitas são quase exterminados. Cidades, mulheres e crianças são destruídas e somente 600 homens conseguem escapar. A fim de que a tribo não seja extinta, as outras tribos destroem a cidade de Jabes-Gileade, que não tinha tomado parte na guerra civil, providenciando desta forma 400 jovens virgens para os benjamitas sobreviventes. Para completar o número de jovens necessárias, as tribos enviam os benjamitas a Siló para que raptem mais 200 mulheres durante a festa da colheita.
É irônico e deplorável que a nação tenha chegado tão baixo. Embora os israelitas supostamente tenham abominado a atitude dos benjamitas em relação à concubina do levita, eles acabaram fazendo a mesma coisa, só que em escala maciça.

Sumário

O declínio moral de Israel está completo. No começo do livro, as mulheres inspiravam os homens a grandes feitos; depois, passaram a desempenhar o papel de libertadoras - primeiro de inimigos externos e então de inimigos internos. Agora são violentadas, raptadas e massacradas por seus próprios compatriotas. Compare o final do livro com a história de Sísera. No início, a ameaça vinha de fora. Se fossem os homens de Sísera que tivessem vencido a batalha, seriam eles que violentariam as mulheres israelitas. Agora, no entanto, vemos que o declínio na liderança masculina é tão grande que são os próprios israelitas que afligem suas próprias mulheres.

Aplicação

Como tudo isto se aplica a nós?
  •  Creio que as coisas que vimos nos mostram como é importante ter fé em Deus e iniciativa para agir. Lembramos de Otoniel, que era forte na fé, em contraste com Gideão e Baraque, que não eram.
  •  Também vimos que Deus pode usar homens que são fracos na fé (Gideão).
  •  Uma das mensagens de Juízes é que uma só pessoa pode fazer toda a diferença. A Bíblia tem muita gente, mas há vezes em que Deus usa pessoas individuais para realizar Sua vontade.
  •  A questão da liderança masculina talvez seja o ponto principal do livro.
Com freqüência as pessoas usam o livro de Juízes para provar que liderança feminina é bíblica. No entanto, creio que estas histórias mostram que os homens eram fracos e não estavam fazendo o que deveriam. Débora, Jael e a mulher que matou Abimeleque foram grandes mulheres. Não consigo encontrar nelas nenhum defeito. Contudo, tudo o vimos demonstra que aquela era uma sociedade decadente. Quando surgem oportunidades para a liderança feminina, na verdade, é sinal de que alguma coisa está errada.
Liderança masculina também é um grande problema em nossos dias. Para muitas pessoas é quase um palavrão. Alguns poucos cristãos conservadores, "duros na queda", ainda concordam com ela, mas não muitos. Não é politicamente correta. No entanto, podemos ver que este é um problema comum em toda a Bíblia.
Tudo começou com Adão. Ele não exercia sua liderança quando comeu o fruto. Ele seguia o exemplo de Eva. Sei que a maioria de nós já ouviu a explicação de Gênesis 3:16 sobre o desejo da mulher de governar sobre o seu marido, mas que Deus queria que a liderança fosse do homem. A inclinação natural do homem é esquivar-se e deixar de tomar a iniciativa. Deus fez-nos assim para que a única maneira de sermos bem sucedidos como líderes seja andando pela fé e confiando Nele para nos segurar quando cairmos ou falharmos. E nós cairemos. Tomaremos decisões erradas. E esta é a razão pela qual não queremos assumir a liderança. Temos medo. Quando os homens falham nesse sentido, geralmente as mulheres interferem e fazem o que é preciso. Normalmente elas também fazem um bom trabalho, mas este não é o ideal de Deus, e o resultado final é a ruína.
Qual é a maior razão para não assumirmos a liderança? - O medo - medo do fracasso. Pense em todas as passagens de Juízes onde o herói disse: "Se..." (Baraque, Gideão, Jefté...) Eles tinham medo do fracasso.
Creio que um dos pontos principais do livro seja que os homens precisam tomar a iniciativa e ser líderes. Um dos sinais de uma sociedade decadente é a falta de liderança masculina. Os homens precisam ter fé em Deus e agir com sabedoria. Quando eles não lideram, existe uma grande probabilidade das mulheres interferirem. Elas farão um bom trabalho, mas não conseguirão remar contra a maré e, no final, a sociedade descerá a ladeira tão depressa que se tornará vítima de todos os tipos de atrocidades.
Será que isto tem algo a ver com a nossa sociedade? Creio que nos aproximamos rapidamente de um período tal como este que acabamos de ler.
Para ler mais sobre este assunto, dê uma olhada no estudo "Por que os Homem Não Falam".

Preparando o Caminho para Ana e Samuel

Juízes não é um livro do mais agradáveis. Se alguém fizesse um filme minucioso sobre ele, a classificação teria que ser "R" ("restricted": proibido para menores de 18 anos), devido à violência e à perversão sexual. Todavia, Juízes foi colocado na Bíblia com um propósito. Ele nos mostra como as coisas ruins entraram em Israel antes da chegada de Davi. Vamos dar mais uma olhada no gráfico do Velho Testamento, que mostra como Juízes se encaixa na história de Israel.
Embora tenhamos traçado o declínio da sociedade israelita de acordo com o papel desempenhado pelas mulheres, o autor de Juízes também começou a elaborar um outro tema para apresentar a seus leitores. A pista está numa frase que aparece no início de cada seção: "Havia um (certo) homem de...”
Esta frase é apenas encontrada em Juízes (duas vezes), Rute (uma vez) e I e II Samuel. Acho que é esta uma boa pista de que foi Samuel quem escreveu Juízes e Rute também.
Há ainda outras duas mulheres sobre as quais não falamos: a mãe de Sansão e a mãe de Mica. Elas não se encaixam no cenário anterior, mas desempenham um papel importante no desenrolar do outro tema. Estas senhoras servem como realce na história para a introdução de Ana e seu filho.
Juízes 13:2 diz: "Havia um homem de Zorá...", cuja esposa era estéril e o Anjo do Senhor apareceu a ela e lhe disse que ela teria um filho a quem dedicaria ao serviço do Senhor, e ela teve Sansão. Como vimos, Sansão foi um grande guerreiro, mas não um grande líder. Sua vida foi um desastre. Por isso, a história da mãe de Sansão serve para realçar a história de Ana, apresentada em I Samuel.
Juízes 17:1 diz: "Havia um homem da região montanhosa...” Outra mãe é apresentada. A história da mãe de Mica também serve como realce para a história de Ana. Quando Mica admite ter roubado os 1100 ciclos de prata, sua mãe o abençoa (quando deveria tê-lo repreendido). Ela consagra ao Senhor o dinheiro devolvido e incumbe o filho de manter uma imagem de escultura e um ídolo de fundição feitos com parte da prata. Este ídolo acaba sendo usado pelos danitas para estabelecer o culto religioso em Laís (18:30-31). Uma vez mais vemos um personagem induzindo a nação em erro.
Rute 1:1 diz: “Nos dias em que julgavam os juízes, houve fome na terra; e um homem de Belém de Judá saiu a habitar na terra de Moabe..." Esta frase é semelhante às frases encontradas em Juízes e o autor está prestes a nos apresentar Rute, a heroína da história. Novamente temos uma mulher como personagem de destaque. Rute se sobressai como uma luz resplandecente em meio às trevas do período dos juízes. Ela é exemplo de fidelidade, amor e lealdade - ideal de Deus para aqueles que são Seus. No entanto, quem cumpre esse ideal é uma mulher de fora, que não faz parte do povo de Deus.
Então, chegamos a I Samuel.
I Samuel 1:1 diz: "Houve um homem de Ramataim-Zofim...”
Ana é apresentada. Ela é estéril como a mãe de Sansão. Ela ora a Deus pedindo um filho e faz um voto de que o dedicará ao serviço do Senhor. Vemos que ela promete que jamais uma navalha passará sobre a cabeça dele. A frase introdutória "Houve um homem de...” deve relembrar ao leitor que isto se refere à história de Sansão. Com certeza, o voto sobre o cabelo também. Deus ouve a oração de Ana, Samuel nasce e ela o dedica ao Senhor. No capítulo 10, Deus usa Samuel para constituir um rei em Israel. Você deve se lembrar que o último comentário de Juízes foi: "Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto." Deus muda essa situação em I Samuel. Esta é outra pista literária de que o livro de Juízes nos prepara para a chegada do rei Davi. 
Assim, parece claro para mim que Juízes, Rute e Samuel foram escritos pelo mesmo autor. Em Juízes, ele mostra o declínio da nação. Em Rute, que é uma mulher estrangeira que exemplifica a fidelidade do amor de Deus. E depois, em I Samuel, a ascensão da nação de volta à grandeza pela liderança de Davi. A história de Davi e Golias faz-nos relembrar a história dos primeiros juízes - Otoniel, Eúde e Sangar. Davi também não usou uma arma incomum na luta contra o gigante Golias?
Fico impressionado com a seqüência dos livros de Juízes, Rute e I Samuel, e com a habilidade do autor em fazer a ligação entre eles.
Mas não devemos ficar apenas impressionados. Os homens devem se convencer de sua responsabilidade de confiar em Deus e tomar a liderança. E as mulheres, da futilidade de interferir e tomar as rédeas quando os homens não assumem seu papel.



https://bible.org/node/17802

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Pecadores nas Mãos de um Deus Irado - por Jonathan Edwards




Sermão pregado em 08 de Julho de 1741 em Enfield, Connecticut - EUA 
... A seu tempo, quando resvalar o seu pé” (Deuteronômio 32.35).
Nesse versículo os ímpios e incrédulos israelitas, que eram o povo visível de Deus, e que viviam debaixo de Sua graça, são ameaçados com a vingança do Senhor. Apesar de todas as obras maravilhosas que Deus operara em favor desse povo, este permanecia sem juízo e destituído de entendimento, como está escrito no versículo 28. e mesmo sob todos os cuidados do céu produziram fruto amargo e venenoso, conforme verificamos nos dois versículos anteriores.
A declaração que escolhi para meu texto, "A seu tempo, quando resvalar o seu pé", parece subentender as seguintes questões, relativas à punição e destruição que aqueles ímpios israelitas estavam sujeitos a sofrer:
1. Que eles estavam sempre expostos à destruição , assim como está sujeito a cair todo aquele que se coloca de pé, ou anda por lugares escorregadios. A maneira como serão destruídos vem aí representada pelo deslize de seus pés. A mesma citação encontramos no Sl 73.18-19, "Tu certamente os pões em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição".
2. Faz supor também que estavam sempre sujeitos a uma súbita e inesperada destruição, à semelhança daquele que anda por lugares escorregadios e a qualquer instante pode cair. O ímpio não consegue prever se, num momento, ficará de pé, ou se, em seguida, cairá. Quando cai, cai subitamente, sem aviso, como está escrito, também, no Sl 73.18-19, "Tu certamente os põe em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados! Totalmente aniquilados de terror!"
3. Outra coisa implícita no texto é que os ímpios estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pelas mãos de outrem, pois aquele que se detém ou anda por terrenos escorregadios não precisa mais do que seu próprio peso para cair por terra.
4. E também a razão pela qual ainda não caíram, e não caem, é por não haver chegado ainda o tempo determinado pelo Senhor. Pois está escrito que quando este tempo determinado, ou escolhido, chegar, seu pé irá resvalar. E então serão entregues à queda, para a qual já estão predispostos por causa do próprio peso. Deus não os susterá mais em lugares escorregadios, mas vai deixá-los sucumbir. Então, nesse exato momento, cairão em destruição, à semelhança daqueles que transitam em terrenos escorregadios, à beira de precipícios, e não conseguem se manter de pé sozinhos,caindo imediatamente e se perdendo ao serem abandonados.
Eu insistira agora num exame maior das seguintes palavras: não há nada, a não ser a boa vontade de Deus, que impeça os ímpios de caírem no inferno a qualquer momento.
Por mera boa vontade de Deus, me refiro à sua vontade soberana, ao seu livre arbítrio, o qual não é restringido por nenhuma obrigação, nem tolhido por qualquer tipo de dificuldade. Em última análise, sob qualquer aspecto, nada, exceto a vontade de Deus, tem poder para preservar os ímpios da destruição por um instante sequer.
A verdade dessa observação transparecerá nas seguintes considerações:
1. Não falta poder a Deus para lançar os ímpios no inferno a qualquer momento. A mão dos homens não é suficientemente forte quando Deus se levanta. O mais forte deles não tem poder para resistir-lhe, e ninguém consegue se livrar de suas mãos.Ele não só pode lançar os ímpios no inferno, como pode fazê-lo com a maior facilidade. Muitas vezes, uma autoridade terrena encontra grande dificuldade em dominar um rebelde, o qual acha meios de se fortalecer e se tornar mais poderoso pelo número de seguidores que alicia. Mas com Deus não é assim. Não há força que resista ao seu poder. Mesmo que as mãos se unam, e que enormes multidões de inimigos do Senhor juntem suas forças e se associem, serão todos facilmente despedaçados. São como montes de palha seca e leve diante de um furacão, ou como grande quantidade de restolho perto de chamas devoradoras. Nós achamos fácil pisar e esmagar uma lagarta que se arrasta pelo chão. Achamos fácil também cortar ou chamuscar um fio de linha fino que segura alguma coisa. Então, é simples para Deus, quando lhe apraz, lançar seus inimigos no inferno profundo. Quem somos nós, que imaginamos poder resistir Àquele ante cuja repreensão a terra treme, e perante quem as pedras tombam?
2. Eles merecem ser lançados no inferno. Assim, a justiça divina não se interpõe no caminho dos ímpios; nem faz objeção pelo fato de Deus usar seu poder para destruí-los a qualquer momento. Muito pelo contrário, a justiça fala assim da árvore que produz frutos maus: "... pode cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra?" (Lc 13.7). A espada da justiça divina está o tempo todo erguida sobre suas cabeças, e somente a mão de absoluta misericórdia e a mera vontade de Deus podem detê-la.
3. Os ímpios já estão debaixo da sentença de condenação ao inferno. Eles não só merecem ser lançados ali, mas a sentença da lei de Deus, esse preceito de eterna e imutável retidão que o Senhor estabeleceu entre si mesmo e a humanidade, também se coloca contra eles, e assim os mantém. Portanto, tais homens já estão destinados ao inferno. "...o que não crê já está julgado." (Jo 3.18). Assim, todo impenitente pertence, verdadeiramente, ao inferno. Ali é o seu lugar, ele é de lá, como temos em João 8.23: "vós sois cá debaixo" e para lá é destinado. Este é o lugar que a justiçam, a Palavra de Deus e a sentença de sua lei imutável reservam para ele.
4. Assim sendo, eles são objetos da ira e da indignação de Deus, que se manifesta através dos tormentos do inferno. E a razão de não descerem ao inferno agora mesmo não é pelo fato do Senhor, em cujo poder se encontram, estar menos irado com eles no momento, ou, pelo menos, não tão encolerizado como está com aquelas miseráveis criaturas a quem ele atormenta no inferno, as quais experimentam e sofrem ali a fúria de sua indignação. Sim, Deus se acha muito mais furioso com um grande número de pessoas que está vivendo na terra agora, talvez de modo mais tranqüilo e confortável, do que com muitos daqueles que estão experimentando as chamas do inferno. Portanto, a razão porque Deus ainda não abriu a sua mão e os liquidou, não é por ele não se importar com suas iniqüidades, ou não se ofender. O Senhor não se parece com eles, embora pensem que sim. A fúria de Deus arde contra eles, sua condenação não demora. O abismo está preparado, o fogo está pronto, a fornalha incandescente está ardendo, pronta para recebê-los. As chamas vermelhas queimam. A espada luminosa foi afiada e pesa sobre suas cabeças. O inferno abriu a sua boca debaixo deles.
5. O diabo está pronto a cair sobre os ímpios, para apoderar-se deles como coisa sua, no momento em que Deus o permitir. Eles lhe pertencem, suas almas encontram-se em seu poder e sob seu domínio. As Escrituras os apresentam como propriedade de satanás (Lc 11.21). Os demônios os espreitam, estão sempre ao seu lado, à sua direita, esperando por eles como leões esfaimados e enfurecidos que vêem a presa, aguardando a hora de agarrá-la, mas são restringidos por enquanto. Se Deus retirasse sua mão, a qual os refreia, eles cairiam sobre suas pobres almas num instante. A velha serpente está pronta a dar o bote. O inferno escancara sua boca para recebê-los. E se Deus permitisse, seriam rapidamente engolidos e consumidos.
6. Nas almas dos pecadores reinam aqueles princípios diabólicos que os faria arder agora mesmo no inferno, se não fosse a restrição imposta por Deus. Existe na própria natureza carnal do homem uma potencialidade alicerçando os tormentos do inferno. Há aqueles princípios corruptos que agem de maneira poderosa sobre eles, que só dominam completamente, e que são sementes do fogo do inferno. Esses princípios são ativos e poderosos, de natureza extremamente violenta, e se não fosse a mão restringidora do Senhor sobre eles, seriam logo destruídos. Iriam arder em chamas da mesma forma que a corrupção e a rebeldia fazem arder os corações das pessoas condenadas, gerando nelas os mesmos tormentos. As almas dos ímpios são comparadas nas Escrituras com o mar agitado (Is 57.20). Por enquanto Deus controla as iniqüidades deles pelo seu imenso poder, como faz com as ondas enfurecidas do mar, dizendo: "virão até aqui, mas não prosseguirão." Mas se Deus retirasse deles seu poder refreador, seriam todos tragados por elas. O pecado é a ruína e a miséria da alma. Ele é destrutivo pela própria natureza. E se Deus o deixasse sem controle, não seria preciso mais nada para tornar as almas humanas absolutamente miseráveis. A corrupção no coração do homem é algo cheio de fúria incontrolável e sem freio. Enquanto os pecadores viverem aqui, essa fúria será como fogo reprimido pelas restrições divinas. Ao passo que, se fosse liberada, incendiaria o curso natural da vida. E como o coração é um poço de pecado, este mesmo pecado iria imediatamente transformar a alma num forno incandescente ou numa fornalha de fogo e enxofre, caso não fosse restringido.
7. O fato de não haver sinais visíveis da morte por perto, não quer dizer que haja, por um momento, sequer segurança para os ímpios. O fato do homem natural ter boa saúde, de não prever que poderia deixar este mundo num minuto por um acidente, de não haver perigo visível à sua volta, nada disso lhe ser vê de segurança. Contínuas e inúmeras experiências humanas, em todas as épocas, nos mostram que não existem provas de que o homem não esteja à beira da eternidade, ou de que seu próximo passo não venha a ser no outro mundo. Os caminhos e meios, invisíveis e imprevistos, de chegar lá são incontáveis e inconcebíveis. Os homens não convertidos caminham por cima das profundezas do inferno, sobre uma superfície frágil onde existem varias áreas quebradiças, também invisíveis, as quais não conseguirão agüentar o seu peso. As flechas da morte voam ao meio-dia sem serem vistas. O olhar mais atento não pode distingui-las. Deus tem muitas maneiras diferentes e misteriosas de tirar os homens pecadores do mundo e despachá-los para o inferno. Não há nada que faça crer que o Senhor precise de ajuda de um milagre, ou que necessite se desviar do curso natural de sua providência para destruir qualquer pecador, a qualquer momento. Desde que todos os meios para fazer os ímpios deixarem este mundo estão de tal forma nas mãos de Deus, tão absoluta e universalmente sujeitos ao seu poder e determinação, segue-se que a ida dos pecadores para o inferno, a qualquer momento, depende simplesmente da vontade de Deus – quer usando meios ou não.
8. O cuidado e a prudência dos homens naturais em preservar suas vidas, ou o cuidado de terceiros em preservá-las, não lhes dá segurança por um momento sequer. A providência divina e a experiência humana testificam isso. Existem evidências claras de que a sabedoria dos homens não lhes é segurança contra a morte. Se não fosse assim, haveria uma diferença entre a morte prematura e inesperada de homens sábios e prudentes, e dos demais. Mas, o que realmente acontece? "Como morre o homem sábio? Assim como um tolo." (Ec 2.16).
9. Todo o esforço e artimanha dos ímpios para escaparem do inferno não os livram do mesmo, nem por um momento, pois continuam a rejeitar a Cristo, e portanto permanecem ímpios. Quase todos os homens naturais que ouvem falar do inferno alimentam a ilusão de que vão escapar dele. Quanto a sua própria segurança, confiam em si mesmos. Vangloriam-se do que fizeram, do que estão fazendo e do que pretendem fazer. Cada um traça seu próprio plano, pensa em evitar a condenação, e se vangloria e que irá tramar tão bem todas as coisas que seu esquema, com certeza, não falhará. Na verdade, eles ouvem dizer que poucos se salvam, e que a maior parte dos homens que já morreram foram para o inverno; mas cada um deles se imagina capaz de planejar melhor a própria fuga, do que os outros puderam fazer. Dentro de si mesmos dizem que não pretendem ir para esse lugar de tormento, e que pretendem tomar todo o cuidado necessário, esquematizando as coisas de tal forma na ao terem possibilidade de falhar.

Mas os insensatos filhos dos homens iludem-se miseravelmente quanto a seus próprios planos. A confiança que depositam na própria força e sabedoria é o mesmo que confiar na fragilidade de uma sombra. A maior parte daqueles que antes viveram debaixo da dispensação da graça, e agora estão mortos, sem dúvida alguma foram para o inferno. E não é por terem sido menos espertos do que os que ainda estão vivos, nem por terem planejado as coisas de tal forma que não lhes assegurou o escape. Se pudéssemos falar com eles, um a um, e perguntar-lhes se, quando vivos, esperavam ser vítimas de tamanha miséria, sem dúvida ouviríamos todos dizer: "Não, eu nunca pensei em vir para cá. Eu tinha esquematizado as coisas de maneira bem diferente. Pensei que iria conseguir algo melhor para mim, que meu plano era adequado. Pensei em me precaver melhor, mas tudo aconteceu de maneira tão repentina. Não esperava por isso naquela época, e nem daquela maneira. Mas tudo veio como um ladrão. A morte foi mais esperta que eu. A ira de Deus foi rápida demais para mim. Oh!, maldita insensatez! Eu me gabava, e me deleitava em sonhos vãos quanto ao que faria no futuro. E justamente quando eu mais falava de paz e segurança, me sobreveio uma súbita destruição."
10. Deus não se sujeita a nenhuma obrigação, nem a nenhuma promessa de manter o homem natural fora do inferno por um momento sequer. Ele não fez absolutamente nenhuma promessa de vida eterna, ou de libertação ou proteção da morte eterna, senão àquelas que estão contidas na aliança da graça – as promessas concedidas em Cristo, no qual todas as promessas são o sim e o amém. Mas obviamente os que não são filhos da aliança da graça não têm interesse na mesma, pois não crêem em nenhuma das suas promessas, e nem têm o menor interesse no Mediador dessa aliança.
Portanto, apesar de tudo que os homens possam imaginar ou pretender sobre promessas de salvação, devido suas lutas pessoais e buscas incessantes, deixamos claro e manifesto que qualquer desses esforços ou orações que se façam em relação à religião, será inútil. A não ser que creiam em Cristo, o Senhor, de modo nenhum Deus está obrigado a conservá-los fora da condenação eterna.
Então, os homens impenitentes estão detidos nas mãos de Deus por cima do abismo do inferno. Eles merecem o lago de fogo e para ele estão destinados. Deus se acha terrivelmente irritado. Seu furor para com eles é tão grande quanto para com aqueles que já estão agora sofrendo o suplício da fúria de sua ira no inferno. Esses ímpios não fizeram absolutamente nada para abrandar ou diminuir sua cólera, portanto o Senhor não está de modo algum preso a qualquer promessa de livramento, nem por um momento sequer. O diabo espera por eles, o inferno já escancarou a sua boca para tragá-los. O fogo latente em seus corações agrava-se agora querendo explodir. E como continuam sem o menor interesse no Mediador, não existem meios, ao alcance deles, que lhes possa dar segurança. Em suma, eles não têm refúgio e nada onde se segurar. O que os retém a cada instante é a absoluta boa vontade divina e a clemência sem compromisso, sem obrigação, de um Deus enraivecido.

Aplicação
Essa mensagem pode despertar as pessoas não convertidas para o significado do perigo que estão correndo. Isso que vocês escutaram é o caso de todo aquele que não está em Cristo. Esse mundo de tormento, isto é, o lago de enxofre incandescente, está aberto debaixo de vossos pés. Ali se encontra o terrível abismo de chamas que ardem com a fúria de Deus, e o inferno com sua imensa boca escancarada. E vocês não têm onde se apoiarem, nem coisa alguma onde se segurarem. Não existe nada entre vocês e o inferno, senão o ar, e só o poder e o favor de Deus podem vos suster.

Provavelmente vocês não têm consciência dessas coisas, acham que vão conseguir se livrar do inferno, e não vêem nisso tudo a mão de Deus. E olham as coisas ao seu redor, como o bom estado de vossa saúde física, os cuidados que tomam de vossas vidas, e os meios que usam para vossa própria preservação. Mas essas coisas não representam nada. Se Deus retirasse sua mal, elas de nada valeriam para impedir-vos a queda; elas valem tanto como a brisa tênue que tenta sustentar uma pessoa no ar.

Vossas iniqüidades vos fazem pesados como chumbo, pendentes para baixo, pressionados em direção ao inferno pelo próprio peso, e se Deus permitisse que caíssem vocês afundariam imediatamente, desceriam com a maior rapidez, e mergulhariam nesse abismo sem fundo. Vossa saúde, vossos cuidados e prudência, vossos melhores planos, toda a vossa retidão, de nada valeriam para sustentar-vos e conservar-vos fora do inferno. Seria como tentar segurar uma avalancha de pedras com uma teia de aranha. Se não fosse a misericórdia de Deus, a terra não suportaria vocês por um só momento, pois são uma carga para ela. A natureza geme por causa de vocês. A criação foi obrigada a se sujeitar à escravidão, involuntariamente, por causa da vossa corrupção. Não é com prazer que o sol brilha sobre vocês, para que sua luz vos alumie para pecarem e servirem a satanás. A terra não produz de bom grado os seus frutos para satisfazer vossa luxuria. Nem está disposta a servir de palco à exibição de vossas iniqüidades. Não é voluntariamente que o ar alimenta vossos corpos, mantendo viva a chama dos vossos corpos, enquanto vocês gastam a vida servindo os inimigos de Deus. As coisas criadas por Deus são boas e foram feitas para o homem, por meio delas, servisse ao Senhor. Não é com prazer que prestam serviço a outros propósitos, e gemem quando são ultrajadas ao servirem objetivos tão contrários à sua finalidade e natureza. E a própria terra vomitaria vocês se não fosse a mão soberana d'Aquele a quem vocês tanto tem ofendido. Eis aí as nuvens negras da ira de Deus pairando agora sobre vossas cabeças carregadas por uma tempestade ameaçadora, cheia de trovões. Não fosse a mão restringidora do Senhor, elas arrebentariam imediatamente sobre vocês. A misericórdia soberana de Deus, por enquanto, refreia esse vento impetuoso, do contrário ele sobreviria com fúria, vossa destruição ocorreria repentinamente, e vocês seriam como palha dispersada pelo vento.

A ira de Deus é como grandes águas represadas que crescem mais e mais, aumentam de volume, até que encontram uma saída. Quanto mais tempo a correnteza for reprimida, mais rápido e forte será o seu fluxo ao ser liberada. É verdade que até agora ainda não houve um julgamento por vossas obras más. A enchente da vingança de Deus encontra-se represada. Mas, por outro lado, vossa culpa cresce dava dez mais, e dia a dia vocês acumulam mais e mais ira contra si mesmos. As águas estão subindo continuamente, fazendo sua força aumentar mais e mais. Nada, a não ser a misericórdia de Deus, detém as águas, as quais não querem continuar represadas e forçam uma saída. Se Deus retirasse sua mão das comportas, elas se abririam imediatamente e o mar impetuoso da fúria e da ira de Deus iria se precipitar com furor inconcebível, e cairia sobre vocês com poder onipotente. E mesmo que vossa força fosse dez mil vezes maior do que é, sim, dez mil vezes maior do que a força do mais forte e vigoroso diabo do inferno, não valeria nada para resistir ou deter a ira divina.

O arco da ira de Deus já está preparado, e a flecha ajustada ao seu cordel. A justiça aponta a flecha para vosso coração, e estica o arco. E nada, senão a misericórdia de Deus – um Deus irado! – que não se compromete e a nada se obriga, impede que a flecha se embeba agora mesmo do vosso sangue. Assim estão todos vocês que nunca experimentaram uma transformação real em vossos corações pela ação poderosa do Espírito do Senhor em vossas almas – todos vocês que não nasceram de novo, nem foram feitos novas criaturas, ressurgindo da morte do pecado para um estado de luz, e para uma vida nova nunca experimentada antes. Por mais que vocês tenham modificado a conduta em muitas coisas, e tenham possuído simpatias religiosas, e até mantido uma forma pessoal de religião com vossas famílias e em particular, indo à casa do Senhor, sendo até severos quanto a isso, mesmo assim vocês estão nas mãos de um Deus irado. Somente sua misericórdia vos livra de ser, agora, neste momento, tragados pela destruição eterna. Por menos convencidos que vocês estejam agora quanto às verdades ouvidas, no porvir serão plenamente convencidos. Aqueles eu já se foram, e que estavam na mesma situação que a vossa, percebem que foi exatamente isso que lhes aconteceu, pois a destruição caiu de repente sobre muitos deles, quando menos esperavam, e quando mais afirmavam vier em paz e segurança. Agora eles vêem que aquelas coisas nas quais puseram sua confiança para obter paz e segurança eram nada mais que uma brisa ligeira e sombras vazias.

O Deus que vos mantém acima do abismo do inferno vos abomina; ele está terrivelmente irritado e seu furor contra vocês queima como fogo. Ele vê vocês como apenas dignos de serem lançados no fogo. E seus olhos são tão puros que não podem tolerar tal visão. Vocês são dez mil vezes mais abomináveis a seus olhos do que é a mais odiosa das serpentes venenosas para olhos humanos. Vocês o têm ofendido infinitamente mais do que qualquer rebelde obstinado ofenderia a um governante. No entanto, nada, a não ser a sua mão, pode impedir-vos de cair no fogo a qualquer momento. O fato de vocês não terem ido para o inferno a noite passada e de terem tido permissão para acordar ainda aqui neste mundo, depois de terem fechado os olhos ontem para dormir, atribui-se ao mesmo favor. Não existe outra razão porque vocês não foram lançados no inferno ao se levantarem pela manhã, a não ser o fato da mão de Deus ter-vos sustentado. E não existe outra razão porque vocês não caiam no inferno neste exato momento.

Oh!, pecador, pense no perigo terrível que se encontra! É sobre uma grande fornalha de furor, sobre um abismo imenso e sem fim, cheio do fogo da ira, que você está pendurado, seguro pela mão de Deus, cujo furor acha-se tão inflamado contra você, como contra muitas pessoas já condenadas no inferno. Você está suspenso por uma linha tênue, com as chamas da cólera divina lampejando à tua volta, prontas para atearem fogo e queimar-te por inteiro. E você continua sem interesse no Mediador, sem nada onde se agarrar para poder se salvar, nada que possa afastar as chamas da cólera divina, nada de teu próprio, nada que tenha feito ou possa vir a fazer, para persuadir o Senhor a poupar tua vida por um minuto sequer. Considere, então, mais detidamente, vários aspectos dessa cólera que te ameaça com tão grande perigo.

1. A quem pertence essa ira? É a ira do Deus infinito. Se fosse somente a ira humana, mesmo a do governante mais poderoso, comparativamente seria considerada como coisa pequena. A ira dos reis é bastante temida, principalmente dos monarcas absolutos, que possuem os bens e as vidas de seus súditos inteiramente sob o seu poder, para serem usados quando bem entenderem. "Como o bramido do leão é o terror do rei; o que lhe provoca a ira peca contra a sua própria vida." (Pv 20.2). O súdito que enfurece este tipo de governante arbitrário, sofre os maiores tormentos que se possa conceber, ou que o poder humano possa infligir. Porém, os maiores principados da terra, em toda a sua grandeza, majestade e poder, mesmo revestidos de seus grandes terrores, não são mais do que vermes débeis e desprezíveis que rastejam no pó, quando comparados com o grande e todo-poderoso criador e rei dos céus e da terra. Mesmo quando estão enraivecidos e sua fúria chega ao máximo, é muito pouco o que podem fazer. Os reis da terra são, perante Deus, como gafanhotos. Valem menos que nada. Tanto o seu amor quanto o seu ódio são desprezíveis. A ira do grande Rei dos reis é muito mais terrível do que a deles, tal como é maior a sua majestade. "Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer". (Lc 12.4-5).
2. É à ferocidade de sua ira que vocês estão expostos. Lemos, com freqüência, sobre a ira de Deus, como por exemplo em Is 58.18. "Segundo as obras deles, assim retribuirá; furor aos seus adversários." E também em Is 66.15 "Porque, eis que o Senhor virá em fogo, e os seus carros como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor, e a sua repreensão em chamas de fogo." E assim é em muitos outros lugares da Bíblia. Lemos também em ap 19.15: "... o lagar do vinho do furor da ira do Deus todo-poderoso." Essas palavras são incrivelmente aterradoras. Se estivesse escrito apenas a "ira de Deus", isso já nos faria supor algo bastante temível. Mas está escrito "o furor da ira de Deus", ou seja, a fúria de Deus, o furor de Jeová! Oh!, quão terrível deve ser esse furor! Quem pode exprimir ou conceber o que essas palavras contêm? Mas não é apenas isso que está escrito, e sim "o furor da ira do Deus Todo-Poderoso." Essas palavras dão a entender que uma grande manifestação de seu poder onipotente vai acontecer. Através dela ele infligirá aos homens todo o furor de sua ira. Assim como os homens costumam manifestar sua própria força através do furor de sua ira, a onipotência divina irá, da mesma forma, se enfurecer e se manifestar. Então, qual será a conseqüência de tudo isso? O que será do pobre verme que vier a sofrer todo este mal? Que mão serão tão fortes, e que coração conseguirá suportar tanto furor? A que terrível, inexprimível, inconcebível abismo de miséria irá chegar a pobre criatura humana que será vítima disso tudo!
Pensem bem, vocês que estão aqui agora, e que permanecem em estado pecaminoso. O fato de Deus vir a efetivar o furor da sua ira, torna implícito que ele infligirá esse castigo sem compaixão. Quando Deus olhar a indescritível aflição do vosso estado, e vir como vossos tormentos são absolutamente desproporcionais à vossa força, e como vossas pobres almas estão esmagadas, imersas em trevas eternas, não terá compaixão de vocês, não ira deter a execução de sua ira, ou, de forma alguma, tornar mais leve sua mão. Nessa hora Deus não usará de misericórdia para com vocês, nem conterá seu vento impetuoso. Ele não terá consideração para com o vosso bem estar, e nem irá evitar que vocês sofram. Na verdade, fará com que sofram na medida exata que sua rigorosa justiça vier a requerer. Nada será modificado só pelo fato de ser difícil para vocês suportarem. "Pelo que também eu os tratarei com furor; os meus olhos não pouparão, nem terei piedade. Ainda que me gritem aos ouvidos em alta voz, nem assim os ouvirei." (Ez 8.18). Deus está pronto, agora, a usar de compaixão com vocês. Hoje é o dia da misericórdia. Vocês podem clamar neste instante, e ter esperanças de alcançar sua graça. Mas quando o dia da misericórdia passar, vosso lamento, o pranto mais doloroso, os gritos, serão em vão. No que diz respeito ao vosso bem estar, vocês estarão completamente perdidos e alienados de Deus. O Senhor não terá outra opção senão a de entregar-vos ao sofrimento e à miséria. E vocês continuarão não tendo outra perspectiva, pois serão vasos de ira, preparados para a destruição. Não haverá outro uso qualquer para tais vasos, senão o de enchê-los da ira de Deus. Quando clamarem ao Senhor, ele estará tão longe de consolar-vos que, inclusive, está escrito a este respeito que Deus irá, simplesmente, 'rir e zombar' de vocês (Pv 1.25-26).
Vejam quão terríveis são estas palavras do grande Senhor: "O lagar eu o pisei sozinho, e dos povos nenhum homem se achava comigo; pisei as uvas na minha ira; no meu furor as esmaguei, e o seu sangue me salpicou as vestes e me manchou o traje todo." (Is 63.3). É quase impossível se conceber palavras que tragam em si uma manifestação maior destas três coisas: desprezo, ódio e fúria de indignação. Se clamarem a Deus por consolo, ele estará longe de querer vir consolar-vos, ou de querer demonstrar-vos interesse ou favor. Ao contrario, o Senhor simplesmente irá esmagar-vos sob seus pés. E apesar de saber que, ao pisotear-vos, vocês não poderão suportar o peso de sua onipotência, ainda assim ele não vai se importar, e irá esmagar-vos debaixo de seus pés, sem piedade, espremendo o vosso sangue e fazendo com que o mesmo espirre longe, manchando suas vestes, maculando seu traje. Ele não só irá odiar-vos, como devotará a vós o maior desprezo. Lugar algum será considerado próprio para vocês, a não ser debaixo de seus pés, para serem pisados como a lama das ruas.
3. A miséria a que vocês estão sujeitos é aquela que Deus vos infligirá, a fim de demonstrar a força da ira do Senhor, Deus tem em seu coração a intenção de mostrar aos anjos e aos homens, não só a excelência do seu amor, como a severidade de seu furor. Às vezes os governantes da terra resolvem mostrar a força de sua ira através de castigos extremos que mandam infligir sobre aqueles que os enfurecem. Nabucodonosor, o poderoso e arrogante rei do império dos caldeus, demonstrou seu furor quando, ao se irritar com Sadraque, Mesaque e Abdenego, ordenou que se acendesse a fornalha de fogo ardente sete vezes mais do que o normal. Como era de se esperar, a fornalha foi aquecida intensamente, até atingir o mais alto grau que poderia produzir. O grande Deus também quer revelar a sua ira, e exaltar sua tremenda majestade e grandioso poder através dos sofrimentos desmedidos de seus amigos. "Que diremos, pois, se Deus querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos da ira, preparados para a perdição." (Romanos 9.22). E visto que esse é o seu desígnio e o que ele determinou, ou seja, mostrar quão terrível e ilimitada é a ira, a fúria e a indignação do Senhor, ele o mostrará realmente. Será realizado algo horrendo, muito terrível. Quando o grande e furioso Deus tiver se levantado e executado sua terrível vingança sobre o mísero pecador, e o desgraçado estiver sofrendo o peso e o poder infinito de sua indignação, então Deus chamará o universo inteiro para contemplar a imensa majestade e o tremendo poder que nele existe. "Os povos serão queimados como se queima a cal, como espinhos cortados arderão no fogo." "Ouvi vós os que estais longe, o que tenho feito; e vós, que estais perto, reconhecei o meu poder. Os pecadores em Sião se assombram, o tremor se apodera dos ímpios; e eles perguntam: quem dentre nós habitará com o fogo devorador? Quem dentre nós habitará com chamas eternas?" (Isaías 33.12-14).
Assim será com vocês que não são convertidos, se permanecerem neste estado. O poder infinito, a majestade e a grandiosidade do Deus onipotente serão exaltados em vocês através da inexprimível força dos tormentos que vos sobrevirão. Vocês serão atormentados na presença dos santos anjos e na presença do Cordeiro. E quando estiverem nesse estado de sofrimento, os gloriosos habitantes do céu sairão para contemplar esse espetáculo horrendo, e verão como é a fúria do Todo-poderoso. E quando virem todas essas coisas, se prostrarão e adorarão seu grande poder e majestade. "E será que de uma lua nova à outra, e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor. Eles sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne." (Isaías 66.23-24).
4. É uma ira eterna. Já seria algo terrível sobre o furor e a cólera do Deus Todo-poderoso por um momento. Mas vocês terão de sofrê-la por toda a eternidade. Essa intensa e horrenda miséria não terá fim. Ao olhar para o futuro, vocês verão à frente uma interminável eternidade, de duração infinita, que irá devorar vossos pensamentos e assombrar vossas almas. E vocês irão se desesperar, com certeza, por não conseguirem nenhum livramento, termo, alívio ou descanso para tanta dor. Saberão também, que terão de sofrer até à última gota por longos séculos, por milhões e milhões de anos, lutando e pelejando contra essa vingança inclemente e todo-poderosa. Então, depois de passar por tudo isso, quando tantos séculos vos tiverem consumido, saberão que tudo não passa apenas de uma gota d'água quando comparado ao que ainda resta. Portanto, vosso castigo será, com certeza, infinito. Oh!, quem poderia exprimir o estado de uma alma em tais circunstâncias? Tudo o que pudermos dizer sobre o assunto, vai nos dar, apenas, uma débil e frágil visão da realidade. Ela é inexprimível, inconcebível, pois "Quem conhece o poder da ira de Deus?"
Que horrendo é o estado daqueles que diariamente, a cada hora, se encontram em perigo de sofrer tamanha ira e infinita miséria! Mas esse é o caso sinistro de toda alma que ainda não nasceu de novo, por mais moral, austera, sóbria e religiosa que seja. Queira Deus vocês pensassem em todas essas coisas, sejam jovens ou velhos. Há razões de sobra para acreditar que muitos daqueles que ouviram o evangelho certamente estarão expostos a esse tormento por toda a eternidade. Não sabemos quem são eles, nem o que pensam. Pode ser que estejam tranqüilos agora, escutando esta mensagem sem se perturbarem muito, e que estejam até se gabando de que, no caso deles, conseguirão escapar. Se soubéssemos que dentre os nossos conhecidos existe uma pessoa, uma só, sujeita a sofrer tal tormento como seria doloroso para nós encarar o assunto. Se conhecêssemos essa pessoa, sempre que a víssemos uma tal visão seria terrível para nós. Iríamos todos levantar grande choro, e prantear por sua causa. Mas, infelizmente, em vez de uma pessoa só, é provável que muitos se lembrem destas exortações somente no inferno! E inúmeras pessoas podem estar no inferno em breve tempo, antes mesmo do ano terminar. E aqueles que estão agora com saúde, tranqüilos e seguros, podem chegar lá antes do amanhecer. Todos os que dentre vocês continuarem até o fim em estado natural pecaminoso, e que conseguirem ficar fora do inferno por mais tempo, estarão lá também em breve. Sua condenação não tardará; virá de súbito, e provavelmente para muitos de vocês, de maneira repentina. Vocês têm toda razão em se admirarem de não estar ainda no inferno. É ocaso, por exemplo, de alguns conhecidos seus, que não mereciam o inferno mais do que vocês e que antes aparentavam ter possibilidade de estarem vivos agora tanto quanto vocês. Para o caso deles já não há esperança. Estão clamando lá em extrema penúria e perfeito desespero. Mas aqui estão vocês, na terra dos vivos, cercados pelos meios de graça, tendo a grande oportunidade de obter a salvação. O que não dariam aquelas pobres almas condenadas, desesperadas, pela oportunidade de viver mais um só dia, como que vocês desfrutam neste momento!
E agora vocês têm uma excelente ocasião. Hoje é o dia em que Cristo abre as portas da misericórdia de par em par, e se coloca de pé clamando e chamando em alta voz aos pobres pecadores. Este é o dia em que muitos estão se reunindo a ele, se apressando em chegar ao reino de Deus. Inúmeros estão vindo diariamente do norte, sul, leste e oeste. Muitos que estavam até bem pouco tempo nas mesmas condições miseráveis que vocês estão felizes agora, com os corações cheios de amor por Aquele que os amou primeiro, e os lavou de seus pecados com seu próprio sangue, regozijando-se na esperança de ver a glória de Deus. Como é terrível ser deixado para trás num dia assim! Ver os outros se banqueteando, enquanto vocês estão penando e se definhando! Ver os outros se regozijando e cantando com alegria no coração, enquanto vocês só têm motivos para prantear por causa do sofrimento de seus corações, e de lamentar por causa das aflições e vossas almas! Como podem vocês descansar por um momento sequer em tal estado de alma? Será que vossas almas não são tão preciosas como as almas daqueles que, dia a dia, estão se juntando ao rebanho de Cristo?
Não existem, porventura, muitos que, apesar de estarem há longo tempo neste mundo, até hoje não nasceram de novo, e por isso são estranhos à comunidade de Israel, e nada têm feito durante a vida, a não ser acumular ira sobre ira para o dia do castigo? Oh! senhores, o caso de vocês é, sem dúvida, extremamente perigoso. A dureza de vossos corações e a vossa culpa são imensas. Acaso vocês não vêem como geralmente pessoas de vossa idade são deixadas para trás na dispensação da misericórdia de Deus? Vocês precisam refletir e despertar de vosso sono, pois jamais poderão suportar a fúria e a ira do Deus infinito. E vocês que são rapazes e moças, irão negligenciar este tempo precioso que desfrutam agora, quando tantos outros jovens de vossa idade estão renunciando às futilidades da juventude e acorrendo céleres a Cristo? Vocês têm neste momento uma oportunidade, mas se a desprezarem, sucederá o mesmo que agora está acontecendo com todos aqueles que gastaram em pecado os dias mais preciosos de sua mocidade, chegando a uma terrível situação de cegueira e insensibilidade. E vocês crianças, que não se converteram ainda, não sabem que estão indo para o inferno onde sofrerão a horrenda ira daquele Deus que agora está encolerizado contra vocês dia e noite? Será que vocês ficarão felizes em ser filhos do diabo, quando tantas outras já se converteram e se tornaram filhos santos e alegres do Rei dos reis?
Queira Deus todos aqueles que ainda estão fora de Cristo, pendentes sobre o abismo do inferno, quer sejam senhoras e senhores idosos, ou pessoas de meia idade, quer jovens ou crianças, que possam dar ouvidos agora aos chamados da Palavra e da providência de Deus. Este ano aceitável do Senhor que é um dia de grandes misericórdias para alguns, sem dúvida será um dia de extremo castigo para outros. Quando negligenciam suas almas os corações dos homens se endurece, e a sua culpa aumenta rapidamente. Podem estar certos, porém, que agora será como foi nos dias de João Batista. O machado está posto à raiz das árvores; e toda árvore que não produz fruto, deve ser cortada e lançada no fogo.
Portanto, todo aquele que está fora de Cristo, desperte e fuja da ira vindoura. A ira do Deus Todo-poderoso paira agora sobre todos os pecadores. Que cada um fuja de Sodoma: " Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a campina; foge para o monte, para que não pereças ."
E assim, conhecendo o temor do Senhor, persuadimos aos homens”. “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. (II Coríntios 5.11-20; 6.2). “Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” . (Isaías 55.6-7). Amém.


Sermão traduzido e publicado pela Editora PES . Não distribua sem a devida autorização da editora. Contribua para que novas preciosidades sejam traduzidas: adquira já o seu exemplar! Clique aqui.